Entenda o valor que existe na simplicidade da vida

Entenda o valor que existe na simplicidade da vida
Excesso de sentimentos e tarefas complicam a vida (Imagem: Shutterstock)

“A vida é simples. Nós que complicamos”. Vamos embora no dia a dia sem lembrar desse clichê. Mas basta vermos nossos projetos, desejos ou bem-estar estirados no chão para ele se fazer presente no pensamento. Então somos tomados por uma urgência em voltar, às vezes quilômetros, até o começo da estrada que nos levou até ali, na tentativa de corrigir a rota. Quase sempre percebemos que o erro é querer estar nos muitos destinos aos quais ela dá acesso, ao mesmo tempo, em vez de provar as delícias de um só.

Outros momentos nos convidam a essa viagem de volta para checar as possibilidades de tornar nossos dias mais gostosos e interessantes, além de diminuir o peso deles. Afinal, uma mala leve não atrapalha uma boa caminhada. É o que acontece na mudança de um ciclo. Quem nunca preparou aquela lista clássica com promessas para o ano novo? Algumas são ambiciosas, cheias de aquisições e conquistas importantes. Mas também há as curtinhas, que vão crescendo com o passar dos meses.

A mudança precisa partir de nós

Confiar apenas na virada do calendário nunca dá certo. “Não é uma varinha mágica que, no dia seguinte, a pessoa acorda uma Cinderela. O começo do ano pode ser um novo tempo dentro de cada um, na busca de tranquilidade e de afetos que nos fazem bem. Mas a gente precisa aprender quais os nãos que precisamos nos dar e os sins a que gostaríamos de nos permitir”, analisa Dorli Kamkhagi, doutora em psicologia clínica e coordenadora de grupos da maturidade do IPQ-FMUSP (Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

Receba as novidades sobre Saúde e Bem-estar, Astrologia, Beleza, Culinária e muito mais!

Influência da cultura da produtividade

Nossas listas ficam longas porque somos tentados a embarcar nas infinitas promessas de felicidade que surgem a cada esquina. “A gente tem que começar a ter um olhar um pouco mais maduro e cuidadoso. E não o olhar da gula. Gula não é só comer. É querer tudo”, diz a psicóloga. Quando apressamos o passo em busca de um banquete de sabores, conseguimos apenas uma degustação rápida de cada um, sem sentir os gostos de verdade.

Então a vida se transforma num filme acelerado, daqueles que a gente não entende nada. A matemática que usamos para ela não é exata, já que os cálculos que fazemos não dão o resultado que esperávamos. Ainda assim, insistimos em somar um mundo de afazeres às pausas necessárias para descansar e se encantar com as novidades de cada dia.

Tente viver os seus processos com calma

E nem sempre assumimos tantos compromissos porque precisamos deles. “Existe um certo prestígio da comunidade lá fora para esse tipo de comportamento. Isso vai tornando a vida complicada. Tem que ser sempre um grau avançado daquilo que já fizemos”, nota Jocelaine Silveira, professora de psicologia da Universidade Federal do Paraná. E daí que vem a cobrança de ser sempre o melhor e emendar uma conquista na outra para alcançar a felicidade.

É por isso que nunca nos sentimos prontos e passamos a existência num ensaio para um dia colher o fruto dos nossos esforços. Quando isso acontece, vale aprender com a natureza, que não se curva à cultura da produtividade. Cada planta ou flor tem o seu tempo de produzir, e por isso desabrocham tão perfeitas. E também seguir o conselho dos versos de Ricardo Reis, heterônimo do poeta Fernando Pessoa. “Segue o teu destino, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas. O resto é sombra de árvores alheias.”

Efeitos proporcionados pela sobrecarga

Depois do almoço, Bruna Mendes Lopes caminhou até o jardim, nos fundos da casa dos pais, e sentou-se em meio ao colorido das plantas e flores. “Não sei o que vou fazer da minha vida”, disse. Ficou uma hora ali, entre lágrimas e desabafos, buscando o aconchego do marido, que lhe fazia companhia, e daquele pedaço de natureza enfeitado com um belo pé de girassol. O que tinha dado errado? É verdade que aos 18 anos precisou deixar tudo para trás na capital, quando o pai foi trabalhar em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Mas isso fazia tempo.

De lá para cá, trabalhou duro para ter qualidade de vida. Era praticamente uma turista em casa, de tantas horas que ficava na empresa, onde gerenciava o setor de marketing. Se não bastasse, nos fins de semana fazia trabalhos freelancer para pagar dívidas. Assim, foi levando até aquela tarde de domingo, quando ouviu uma longa reclamação do gestor.

Durante a reflexão que fez no jardim, ela percebeu que seu esforço estava sendo em vão. Apesar de amar a profissão, tinha a sensação de estar dentro de um furacão sem brechas para a calmaria. O preço de corresponder às exigências externas era abafar suas vozes internas. “O trabalho roubou minha vida social, meu tempo, meus sonhos. Estava vivendo em função dele, mesmo morando no interior. Não fazia o menor sentido.”

A vida requer mudanças para o bem-estar

Era hora de amadurecer emocionalmente. Isso exigia uma decisão firme, mesmo Bruna sentindo uma pontada de insegurança. “Percebi que a minha vida tinha que ser mais simples e esse momento marcou a minha virada”, lembra. Na nova jornada, conseguiu um emprego no qual podia trabalhar alguns dias da semana em casa e fez duas promessas a si mesma: não deixar a carreira devorar o seu tempo e confiar a outras pessoas parte da montanha de tarefas que antes abraçava sozinha.

Com a mudança, Bruna parecia uma criança descobrindo um novo mundo, mais tranquilo e feito de delicadezas. E mais importante. Um mundo em que cabia seu sonho de ter um filho. Nem por isso perfeito, como percebeu na depressão pós-parto. Se por um lado foi inundada de sofrimento, por outro aprendeu a jogar fora o desconforto em aceitar ajuda. Descobriu, enfim, a mulher paciente, afetuosa e brincalhona que havia por baixo da rigidez que antes dirigia sua vida.

Esse olhar doce levou Bruna a valorizar momentos aparentemente banais, como estender roupas no varal, embalar a filha na rede ou dar um beijo nela em pequenos intervalos do expediente. “O jeito simples de ver as pessoas e as coisas que a gente conquista simplifica a vida. Foi esse olhar, me entendendo e entendendo o outro, que me trouxe até aqui. Posso simplificar os processos e ter uma vida pessoal.”

Homem comemorando enquanto pessoas aplaudem
Necessidade de reconhecimento constante esconde dores da alma (Imagem: Shutterstock)

Necessidade de reconhecimento e a carência do ego

Desde pequenos somos estimulados a fazer, saber e ter tudo. Se não nos encaixamos nesse personagem idealizado, não merecemos pertencer ao rol de pessoas que deram certo na vida. Por isso, fechamos os olhos para os sacrifícios impostos a quem quer ter um lugar ao sol, mesmo que eles custem nossa paz e saúde. Quando estamos debaixo desse sol, ele parece não brilhar tanto. Então buscamos outro. E outro. E o próximo. Vivemos à espera de aprovação. Não há nada de errado nisso, porque ela é importante para a autoestima. Mas a necessidade constante de reconhecimento esconde dores da alma.

Para muitos, é preferível se alimentar dele a entrar no quarto escuro dos vazios ou sair da fantasia de perfeição. Mais cedo ou mais tarde, percebemos que essa é uma missão impossível, já que ninguém consegue ser aprovado por todos o tempo inteiro. Para driblar essa frustração ou fugir dos incômodos emocionais que queremos manter trancados, nos refugiamos em compras e atividades.

“Hoje uma pessoa me falou: Posso ter um quadro do Van Gogh. Posso ver as nuvens. Elas são lindas, mas eu não vou poder tê-las. Não é tudo o que eu vejo que preciso ter. Foi criada uma necessidade de desejo para a gente consumir tudo. Querer mais, mais e mais. É como um cassino com aquelas luzinhas piscando. Estamos comprando, tendo, carregando sacolas o tempo todo”, observa Dorli.

Importância de reconhecer os próprios valores

Como nada disso tem o poder de dar o que precisamos – é apenas um paliativo -, entupimos nossas casas sem saciar a fome que às vezes nem sabemos de onde vem, ou descobrir o alimento que realmente pode nos sustentar. “As pessoas descrevem coisas muito simples sobre o que as faz se sentir bem. Mas a ação delas vai numa direção contrária. A pergunta é: O que é importante para nós? Que conhecimentos temos dos nossos valores? Que ações têm sentido em nossas vidas? Isso diminui a complicação”, aponta Jocelaine.

Essas respostas varrem o que deturpa a nossa visão e jogam para longe as atitudes que nos boicotam. Com o caminho limpo, as coisas simples se tornam visíveis. Quando nos aproximamos delas, com a atenção presente, vemos a graça de pequenos momentos que, embora não tenham uma embalagem chamativa, possuem um interior rico, profundo e cheio de significados. Como contemplar o mar, dar uma volta no parque, ver uma série na TV num dia frio, ler um livro envolvente, experimentar uma comida caseira no restaurante simples do bairro, terminar uma meditação, fazer um brinde fora de hora ou receber um abraço sem aviso.

Viva os períodos de bonanças

Sem autoconhecimento, achamos que é normal viver na corda bamba de horários apertados e compromissos demais. Desconfiamos das bonanças e logo tratamos de caçar uma tempestade no meio delas. É o que acontece num relacionamento que vai bem e uma das pessoas fica pressentindo algo ruim. Não sossega enquanto não cava uma discussão aqui, outra tensão ali, antecipa uma situação imperdoável, mesmo que não haja nenhum indício de que ela irá acontecer. É assim que se criam problemas onde não existiam e a vida se complica mais uma vez.

Simplificando os dias

Não é difícil simplificar os nossos dias. O segredo é parar de buscar soluções do lado de fora. Quando damos um tempo para cuidar das nossas emoções, elas se acalmam e se tornam nossas melhores conselheiras. Assim como quem nos quer bem e está interessado em nos ouvir. “A gente vai tirando máscaras, máscaras e máscaras, e isso nos deixa mais simples. Muitas vezes nos olhamos e não gostamos daquilo que vemos. Mas é bom vermos quem somos, o que estamos nos tornando”, ressalta Dorli.

Exercício de autoavaliação transforma a vida

O exercício de separar o que é bom e riscar o que não serve mais não é feito de uma hora para outra, de olho no relógio. É preciso mexer naquela gaveta esquecida dentro de nós, que parece ter só velharias, tirar do armário as sensações que nos preenchiam por completo quando éramos crianças. Tudo isso serve de norte para mostrar o que nos traz completude e nos faz crescer.

Ao final, quando passamos a nossa lista de prioridades a limpo, nos surpreendemos como ela encolheu e não inclui mais metas que não estão ao nosso alcance. É reescrita com sonhos que não custam caro, às vezes repetidamente empurrados para frente por falta de tempo; com experiências no lugar de coisas e mais momentos com quem a gente ama. Junto com os excessos, a ansiedade e a exaustão vão embora. Então voltamos para o aqui e agora, onde a alegria bate à porta com mais facilidade.

Pessoa no meio de uma estrada andando
Valorizar os pequenos passos é importante para manter uma vida simples (Imagem: Shutterstock)

O valor da simplicidade está nas coisas pequenas

Essa transformação nos ensina a não voar na velocidade de um foguete nem caminhar com a lentidão de uma tartaruga. Mas valorizar a importância dos pequenos passos rumo ao “nosso lugar”, no ritmo que devem ter. É dar um passo por vez e cruzar a linha de chegada de uma maratona. Não existe uma receita para isso. Nem todo mundo alcança a plenitude se desfazendo de um caminhão de coisas, como os dois jovens de Minimalismo: um documentário sobre as coisas importantes. A avaliação do que é supérfluo é individual. Não precisamos abandonar nossos pertences para termos uma vida simples. Basta descartar a obrigação de agradar e impressionar todo mundo.

“Muitas coisas que a gente tem fazem parte da nossa história. Fotos da vida inteira, uma manta, um objeto… Precisamos saber o que é excesso e o que nos constitui. Os excessos acabam nos confundindo. Eles tapam buracos das nossas faltas. Mas podemos manter coisas sem sentir culpa”, diferencia a doutora em psicologia. Desde que elas não nos deixem perdidos ou nos aprisionem.

Conexão com a própria essência é a chave para evitar dores

Quando a gente limpa a percepção do que é simples, entende que ele tem muito valor, além de ser saudável e carregar uma porção generosa de consciência. Passamos a enxergar a beleza de um texto que não é rebuscado ou de um trabalho sem status, como o de um jardineiro. Jocelaine sugere que a gente fique atento às situações que nos pressionam demais e nos fazem sentir desconectados da nossa essência. Quando elas surgem, é hora de parar e refletir se está valendo a pena.

Não devemos esperar uma chacoalhada para começar a simplificar a vida, como aconteceu com Bruna. É possível evitar dores e decepções quando consideramos a agenda de tarefas e a emocional igualmente importantes. Com as duas em sintonia, as chances de pegarmos a estrada errada, ou querermos todas de uma só vez, são bem menores. É só olhar as placas que estão dentro de nós.

Publicado por Revista Vida Simples

Por Sibele Oliveira

Cumpriu a promessa de não fazer várias coisas ao mesmo tempo. Desde então, se sente mais leve, inteira e produtiva.

Redação EdiCase

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.