Veja como a escrita poder ser uma ferramenta de autoconhecimento
Os textos sรฃo uma forma de se relacionar com o outro, com a gente e com nossas crenรงas mais entranhadas
Estou deitada no chรฃo acarpetado. Devo ter entre 7 e 8 anos. Encaixo meu corpo de menina de uma forma que a cabeรงa fica embaixo da mesa de cabeceira entre duas camas. Converso com Deus. Um diรกlogo silencioso. Um vasculhar por respostas, sentido, escuta. Uma garotinha trancada em si. Inquieta pelas ausรชncias.
Sempre esperei por uma resposta. Algo que me tirasse da solidรฃo. O fardo de ser uma crianรงa que nรฃo conseguia se misturar com as outras. A heranรงa de construir uma versรฃo de si para agradar ao outro. Para ser aceita. Para ser alguรฉm. Ainda na sombra. Sobrevivendo pelas frestas. Respirando para encontrar seu sol.
Percebo que, ao escrever, ainda sigo conversando. Nรฃo sou mais a menina deitada no chรฃo com os olhos voltados para o fundo da mesa de cabeceira. Sou uma mulher que escreve. Alguรฉm que flerta com Deus pelas palavras empunhadas. No amparo que as letras provocam existe um grito ecoando. Ele se esgueira pelos cantos, amplifica, ressoa. A potรชncia da trilha percorrida pelas composiรงรตes escritas nรฃo me assusta. Produz, estranhamente, conforto. O sopro suave de quem se acostumou ร dureza do chรฃo.
![Ilustraรงรฃo de uma m]รฃo segurando uma caneca enquanto escreve em um papel branco](https://portaledicase.com/wp-content/uploads/2024/09/Escrita-1024x683.jpg)
Relacionando-se com o divino
A poeta Adรฉlia Prado acredita que o texto รฉ uma forma de se relacionar com o divino. Um estado poรฉtico atingido por quem se dedica ร labuta de compor a prรณpria vida com a uniรฃo entre as vogais e as consoantes. Dessa forma, ao escrever, me exponho. E, ao ter minhas palavras retiradas de falsas vestes, me coloco diante de quem? De mim.
Ao longo da vida, repetidas vezes, me coloquei embaixo da mesma mesa de cabeceira. Sentada no chรฃo gรฉlido do banheiro. Deitada na cama afundada em travesseiros. Caminhando sem horizonte pela rua cercada por rostos desconhecidos. No sofรก macio e inerte da salaโฆ do analistaโฆ da casa vazia. Quando entendi que a escrita era a travessia, minhas conversas escapuliram do vazio. Firmaram-se nas palavras cravadas em superfรญcies planas e justa.
Nรฃo sou mais a menina no chรฃo encaixada abaixo da mesa. Acuada. Solitรกria. Assustada. Dividida. Confusa. Tenho agora as palavras. Companheiras de diรกlogos espalhados, feito vento que antecede a chuva. Ora redemoinho, ora brisa de verรฃo. Leva. Faz voar. Limpa. Baila. Tira do eixo. Nรฃo pede licenรงa. Sussurra. Sacode. Embriaga. Refresca. Descabela. Movimenta. O texto, agora sei, carrega o que tenho de mais divino. Um estado poรฉtico chamado alma.
Por Ana Holanda – Revista Vida Simples
Encontrou na escrita sua forma de oraรงรฃo, em textos, livros e nos cursos que ministra por aรญ.
