Entenda como a casa influencia no jeito de viver e de se relacionar
Escolher um endereรงo รฉ um exercรญcio e tanto de autoconhecimento
Morar bem รฉ conceito dos mais subjetivos. E impermanente tambรฉm, jรก reparou? Em uma etapa da vida pode significar estar perto da famรญlia. Em outra, habitar um imรณvel a poucas quadras do trabalho ou, ainda, abrir a janela e curtir o horizonte verde e os passarinhos. Sem dรบvida, nossas demandas e desejos sรฃo tantos que nรฃo cabem em nenhum folheto de empreendimento imobiliรกrio. E, mesmo quando julgamos morar bem, podemos nos surpreender com algo fora do nosso controle que, de repente, muda nossa perspectiva. Como aconteceu durante o perรญodo mais duro da pandemia, por exemplo.
Quem morava no apartamento pequeno perto do escritรณrio sentiu falta de um cantinho para tomar sol e respirar ao ar livre. Muita gente que vivia em casas confortรกveis e espaรงosas lamentou o endereรงo distante dos pais, avรณs, filhos. Foi uma avalanche de questionamentos. Uma experiรชncia que derrubou certezas individuais e coletivas.
O que รฉ realmente importante para mim?
Ainda estamos vivendo esse processo. E talvez vocรช tambรฉm integre o grupo de pessoas que pararam para refletir sobre a seguinte pergunta: o que รฉ realmente importante para mim quando eu tenho a chance (e o privilรฉgio) de escolher um lugar para morar? Sรฃo tantas as variรกveis que talvez seja impossรญvel encontrar um CEP que abrace todas as nossas vontades, sonhos, anseios. Em geral, รฉ preciso listar prioridades: o que cabe no bolso, o que torna meu dia a dia mais prรกtico etc. Mas serรก que estamos incluindo nesse rol de essencialidades o que nos faz bem de verdade?
โEm geral, as pessoas pensam na proximidade do trabalho e nas comodidades que o lugar oferece, mas se esquecem de pensar em qualidade de vida e convรญvio em comunidade, por exemplo, que sรฃo aspectos fundamentais ao bem-estar e ร saรบdeโ, diz Antรดnio Alberto Jรบnior, idealizador do Vivert, um condomรญnio fechado em Bom Sucesso, Minas Gerais, pensado para promover o que ele chama de Sete Caminhos de Reconexรฃo (natureza, alimentaรงรฃo saudรกvel, esporte e lazer, trabalho e leveza, arte e cultura, amizade e transcendรชncia).
Para Antรดnio, desde o grande รชxodo rural que aconteceu a partir da dรฉcada de 1950 no Brasil, a populaรงรฃo vem adoecendo mais e hoje sabemos por estudos que isso tem relaรงรฃo direta com a mudanรงa para as cidades e o distanciamento da natureza. โSe o lugar onde moramos influencia nosso jeito de viver, precisamos fazer lugares melhores, que permitam esse contato com a terra, sejam confortรกveis e, ao mesmo tempo, promovam mais convivรชncia entre as pessoasโ, defende ele.

O melhor lugar requer presenรงa
Durante as pesquisas feitas para o desenvolvimento do condomรญnio, pessoas disseram que, quando precisavam se reconectar, elas tiravam fรฉrias e iam para outros lugares. โMas serรก que dรก para viver bem recarregando a bateria apenas uma ou duas vezes por ano?โ, questiona Jรบnior. A aposta dele รฉ a seguinte: precisamos criar lugares que estejam fisicamente preparados para nos oferecer privacidade em espaรงos rodeados de natureza e, ao mesmo tempo, contem com um projeto de convรญvio que estimule as pessoas a estarem mais juntas, em almoรงos comunitรกrios, no coworking, praticando esportes ou em espaรงos de meditaรงรฃo.
Lara Freitas, biourbanista e cofundadora do instituto Programa Permanente Ecobairro, afirma que as cidades tรชm impactado cada vez mais o cotidiano das pessoas e que isso tem levado a uma busca por mudanรงas. โA pandemia acelerou esse olhar e, de certa forma, permitiu vรกrios balรตes de ensaio, como a flexibilizaรงรฃo do trabalho em home office ou a experiรชncia de morar na segunda residรชncia, o que magnetizou um movimento coletivoโ, comenta.
Essas mudanรงas, รฉ bom dizer, podem se dar de diferentes maneiras. โรs vezes, รฉ uma relocalizaรงรฃo simples, dentro da prรณpria cidade, ou seja, mudar para mais perto da escola ou para um bairro mais tranquilo, talvez trocar o apรช por uma casa. รs vezes, envolve buscar uma cidade menor, que possibilite outro ritmo. E hรก quem queira um rompimento com a cidade e a construรงรฃo de uma vida mais ruralโ, diz Lara.
Cada um precisa descobrir o seu caminho
Nessa histรณria, quem nรฃo tem a opรงรฃo de sair da cidade tende a buscar soluรงรตes locais para melhorar seu lugar. โNas comunidades perifรฉricas, o cotidiano difรญcil impulsiona a soluรงรฃo no aqui e agora: a construรงรฃo de uma rede de solidariedade, o fortalecimento da comunidade e das relaรงรตesโ, relata Lara.
Da mesma forma, pessoas que nรฃo pensam em deixar a cidade se mobilizam para redesenhar seus territรณrios com mudanรงas singelas, mas significativas. ร a pracinha do bairro que ganha novas cores com o mutirรฃo de moradores, o parquinho que vira ponto de encontro de mรฃes e pais, o terreno vazio que ganha uma horta comunitรกria. Um alento na vida agitada e individualista promovida por prรฉdios, asfalto e barulho.
โร importante lembrar que o primeiro espaรงo de governanรงa da nossa vida รฉ a nossa casa. Precisamos refletir sobre como podemos ter um lar mais saudรกvel e uma comunicaรงรฃo que fortaleรงa as relaรงรตesโ, argumenta a biourbanista.
Nessa jornada, cada um precisa descobrir o seu caminho. Sabe, jรก morei no mato, jรก morei no centro de Sรฃo Paulo. Hoje estou numa mistura desses mundos, na zona periurbana de uma grande cidade, a poucos metros de um pasto de fazenda que me oferece um horizonte verde, um pรดr do sol lindo e um silรชncio delicioso. รs vezes me sinto no mato. รs vezes, na cidade. E hoje percebo que isso depende mais da paisagem que estรก dentro de mim do que do lugar onde estou โ porque nosso primeiro territรณrio a ser habitado estรก dentro de cada um de nรณs. Jรก parou para pensar nisso?
Texto originalmente publicado na revista Vida Simples (Ediรงรฃo 249).
Por Giuliana Capello
